Como se lê o céu

A astrologia ocidental parte de uma ideia antiga: o céu no momento em que nasceste funciona como um retrato simbólico de ti. Os babilónios já liam os fenómenos do céu como sinais, e não como causas (Astrology, Wikipedia). Nenhum planeta empurra ninguém. O que a tradição oferece é uma linguagem, com regras e vocabulário próprios, para pensar sobre carácter, humor e fases da vida.

No hoohoo há duas partes muito diferentes. As posições dos astros são calculadas a sério, com efemérides astronómicas. A leitura dessas posições é tradição astrológica, e é aí que entra a imaginação. Esta página explica as duas.

A gramática de uma leitura

Quase toda a interpretação assenta numa regra simples, que os manuais repetem há séculos:

  • o planeta diz o quê, a função ou a parte de ti de que se fala;
  • o signo diz como, o estilo com que essa função se exprime;
  • a casa diz onde, a área da vida em que isso aparece;
  • os aspetos dizem como os planetas conversam entre si.

Um exemplo. Vénus fala de afeto e de prazer. Em Gémeos, o signo da curiosidade e da conversa, a tradição lê um afeto que se alimenta de palavras e de novidade. Na casa 7, a das relações a dois, isso aparece sobretudo nas parcerias. Se Vénus estiver em quadratura com Saturno, junta-se uma fricção entre a leveza e a vontade de compromisso. Lida assim, a frase "Vénus em Gémeos na casa 7, em quadratura com Saturno" vira um parágrafo.

♈︎♉︎♊︎♋︎♌︎♍︎♎︎♏︎♐︎♑︎♒︎♓︎123456789101112ACSol em Gémeos, 19°25′☉︎Lua em Caranguejo, 29°44′☽︎Mercúrio em Gémeos, 13°23′☿︎Vénus em Gémeos, 20°49′♀︎Marte em Touro, 0°26′♂︎Júpiter em Gémeos, 3°27′♃︎Saturno em Peixes, 19°05′♄︎Úrano em Touro, 24°39′♅︎Neptuno em Peixes, 29°47′♆︎Plutão em Aquário, 1°47′♇︎
  1. O planeta: Vénus, o afeto.
  2. O signo: Gémeos, a curiosidade.
  3. A casa: a 7, as relações a dois.
  4. O aspeto: a quadratura a Saturno.

O céu de 9 de junho de 2024, às 20h, em Lisboa.

Os astrólogos não estão todos de acordo em cada pormenor, mas esta gramática é comum a quase todas as escolas (Planets in astrology, Wikipedia).

Os signos

Os doze signos são doze fatias de 30° do caminho aparente do Sol ao longo do ano, a eclíptica. A astrologia ocidental usa o zodíaco tropical, que começa no equinócio de março: o Sol entra em Carneiro no primeiro dia da primavera, todos os anos. Por isso as datas mudam um dia para a frente ou para trás de ano para ano, e o hoohoo calcula sempre a posição real do Sol em vez de usar uma tabela fixa (Astrological sign, Wikipedia).

Cada signo combina um elemento e uma modalidade. Os elementos são o temperamento: fogo (entusiasmo, ação), terra (concreto, paciência), ar (ideias, ligação), água (emoção, intuição). As modalidades são o ritmo: os cardinais começam coisas, os fixos sustentam-nas, os mutáveis adaptam-se.

Signo Datas aproximadas Elemento Modalidade Regente Temas
Carneiro 21 mar a 19 abr Fogo Cardinal Marte iniciativa, coragem, pressa
Touro 20 abr a 20 mai Terra Fixo Vénus estabilidade, sentidos, constância
Gémeos 21 mai a 20 jun Ar Mutável Mercúrio curiosidade, conversa, variedade
Caranguejo 21 jun a 22 jul Água Cardinal Lua cuidado, casa, memória
Leão 23 jul a 22 ago Fogo Fixo Sol expressão, generosidade, palco
Virgem 23 ago a 22 set Terra Mutável Mercúrio detalhe, utilidade, método
Balança 23 set a 22 out Ar Cardinal Vénus equilíbrio, parceria, estética
Escorpião 23 out a 21 nov Água Fixo Marte e Plutão intensidade, profundidade, lealdade
Sagitário 22 nov a 21 dez Fogo Mutável Júpiter horizonte, sentido, franqueza
Capricórnio 22 dez a 19 jan Terra Cardinal Saturno ambição, estrutura, persistência
Aquário 20 jan a 18 fev Ar Fixo Saturno e Úrano independência, grupo, ideias novas
Peixes 19 fev a 20 mar Água Mutável Júpiter e Neptuno imaginação, empatia, sonho

Onde há dois regentes, o primeiro é o tradicional e o segundo o moderno. A astrologia clássica só conhecia os sete astros visíveis a olho nu; quando se descobriram Úrano, Neptuno e Plutão, os astrólogos modernos deram-lhes os signos de Aquário, Peixes e Escorpião.

Signo e constelação

Os signos têm o nome das constelações por onde o Sol passava há cerca de dois mil anos. Com a precessão dos equinócios, um bamboleio lento do eixo da Terra, o céu de estrelas deslizou e hoje o Sol, em boa parte de "Carneiro", está na constelação de Peixes. Isto não muda os signos tropicais, porque estão presos às estações e não às estrelas. É também por isso que a história do "13.º signo", Ofiúco, não mexe em nada: a NASA limitou-se a explicar que os babilónios conheciam essa constelação e a deixaram de fora (CNN). A astrologia védica, na Índia, usa o zodíaco sideral, preso às estrelas, e dá signos diferentes para a mesma pessoa.

Os planetas

Em astrologia, "planeta" inclui o Sol e a Lua, que a tradição chama luminares. Os astros pessoais (Sol, Lua, Mercúrio, Vénus, Marte) mexem-se depressa e falam do dia a dia; Júpiter e Saturno marcam ciclos de anos; Úrano, Neptuno e Plutão demoram tanto a dar a volta que gerações inteiras os partilham no mesmo signo.

Astro Volta ao zodíaco O que representa
Sol 1 ano identidade, vontade, aquilo que te dá vida
Lua 27 dias e meio emoções, hábitos, o que te faz sentir em casa
Mercúrio cerca de 1 ano pensamento, conversa, aprendizagem
Vénus cerca de 1 ano afeto, prazer, gosto, o que valorizas
Marte cerca de 2 anos iniciativa, desejo, impaciência
Júpiter cerca de 12 anos abertura, otimismo, vontade de crescer
Saturno cerca de 29 anos limites, paciência, responsabilidade
Úrano cerca de 84 anos mudança súbita, originalidade
Neptuno cerca de 165 anos sonho, idealismo, dissolução de fronteiras
Plutão cerca de 248 anos transformação, intensidade

A tradição antiga chamava "benéficos" a Júpiter e Vénus e "maléficos" a Saturno e Marte. A leitura moderna, que o hoohoo segue, não tem planetas maus: Saturno é o astro da paciência e da forma, Marte o da coragem (Planets in astrology, Wikipedia).

O Nodo Norte, que aparece no teu mapa, não é um astro: é o ponto onde a órbita da Lua cruza a eclíptica. A astrologia moderna lê-o como uma direção para onde crescer.

Retrógrado

Visto da Terra, cada planeta parece às vezes andar para trás no céu durante umas semanas. É uma ilusão de ótica: a Terra ultrapassa-o (ou ele ultrapassa a Terra) na volta ao Sol, como um carro mais lento visto de outro mais rápido. A tradição lê esses períodos como momentos para rever em vez de começar. No teu mapa, os planetas retrógrados levam um ℞.

O ascendente e as casas

Enquanto os signos dependem da época do ano, as casas dependem da hora e do lugar. A Terra dá uma volta sobre si mesma por dia, e por isso todo o zodíaco passa pelo horizonte em 24 horas, com um signo novo a nascer a leste a cada duas horas, mais coisa menos coisa.

O ascendente é o grau do zodíaco que estava a nascer no horizonte leste no instante do teu nascimento. A tradição lê-o como a forma como te apresentas e como os outros te veem à primeira. O ponto oposto, a poente, é o descendente. O meio do céu (MC) é o ponto mais alto que o zodíaco atinge sobre o lugar, e fala de vocação e de imagem pública.

A partir destes pontos, o céu divide-se em doze casas, cada uma uma área da vida. Começam no ascendente e seguem no sentido contrário aos ponteiros do relógio, por baixo do horizonte primeiro.

Casa Área da vida
1 tu, a tua maneira de te apresentares e de entrar nas coisas
2 o que te sustenta, os teus recursos e valores
3 irmãos, vizinhança, conversas e deslocações curtas
4 raízes, família, casa
5 criação, jogo, romance, alegria
6 trabalho do dia a dia, rotinas, serviço
7 relações a dois, parcerias
8 intimidade, partilha, transformação
9 viagens longas, estudo, crenças, sentido
10 vocação, reputação, o caminho público
11 amizades, grupos, projetos para o futuro
12 recolhimento, bastidores, o que fica por dizer

Há várias formas de dividir o céu em casas, e os astrólogos discutem-nas há séculos (House (astrology), Wikipedia). O hoohoo usa Placidus, o sistema mais comum na astrologia ocidental e o que o astro.com usa por defeito. Muito perto dos polos o Placidus deixa de funcionar e o hoohoo passa para Porfírio. Uma consequência prática: um planeta perto do limite entre duas casas pode mudar de casa noutro site que use outro sistema.

Sem hora ou sem local

O ascendente anda cerca de um grau a cada quatro minutos, por isso sem hora de nascimento não há ascendente nem casas. Também a Lua anda depressa, cerca de 13° por dia, e num dia pode mudar de signo. Quando não sabes a hora, o hoohoo mostra o intervalo onde cada astro podia estar e, se esse intervalo atravessa dois signos, diz-te os dois (The Astrology Podcast). Sem local, assume Portugal, contando com os fusos do Continente, da Madeira e dos Açores.

Os aspetos

Os aspetos são os ângulos entre dois astros, medidos ao longo do zodíaco. Os cinco clássicos vêm de Ptolomeu, no século II, e são os que o hoohoo calcula (Astrological aspect, Wikipedia).

Aspeto Ângulo Leitura tradicional
Conjunção 0° juntam-se e intensificam-se, para o bem e para os pontos cegos
Sextil 60° facilidade que pede um pequeno esforço para render
Quadratura 90° fricção que obriga a agir e a ajustar
Trígono 120° apoio natural, que às vezes fica por aproveitar
Oposição 180° dois lados que pedem equilíbrio, muitas vezes através dos outros

Um aspeto raramente é exato. A margem tolerada chama-se orbe, e não há uma tabela universal. O hoohoo usa as orbes de Ernst Ott, as do astro.com: 10° para o Sol e a Lua, 8° para Mercúrio, Vénus e Marte, 6° para Júpiter e Saturno, 4° para os lentos, com a média dos dois quando se cruzam (Orb, AstroWiki). Quanto mais apertado o aspeto, mais peso tem na leitura.

Ler o teu mapa, passo a passo

Um mapa tem dezenas de peças, e o erro mais comum é tentar ler tudo ao mesmo tempo. Os astrólogos costumam seguir uma ordem parecida com esta.

  1. Começa pelo Sol, a Lua e o ascendente, o trio que o hoohoo mostra em primeiro lugar. O Sol diz o que te move, a Lua o que precisas para te sentir bem, o ascendente como chegas aos outros. Muita gente reconhece-se mais na Lua ou no ascendente do que no signo solar.
  2. Procura o regente do mapa, o planeta que rege o signo do teu ascendente. Com ascendente em Virgem, por exemplo, o regente é Mercúrio, e o signo e a casa onde Mercúrio está ganham importância.
  3. Conta quantos astros tens em cada elemento. Um mapa cheio de água e quase sem ar conta uma história diferente de um com tudo em fogo.
  4. Repara nas casas mais cheias: três ou mais astros juntos no mesmo signo ou na mesma casa (um stellium) indicam uma área que a tradição lê como central na tua vida.
  5. Na lista de aspetos, os que têm menos graus de diferença ao exato são os que mais marcam o mapa. Os que envolvem o Sol, a Lua ou o ascendente vêm primeiro.
  6. Depois, planeta a planeta, junta a regra o quê, como e onde.

Um mapa lê-se como um todo. Duas peças podem puxar para lados contrários, e a arte do astrólogo está em fazer a síntese, o que explica porque dois astrólogos podem ler o mesmo mapa de maneiras diferentes.

Ver o meu céu

O céu de hoje: trânsitos e horóscopos

O mapa natal fica parado no momento em que nasceste, mas os astros continuam a andar. Um trânsito é um astro de hoje a fazer um aspeto a um ponto do teu mapa natal. É isso que mostra a página O meu dia: por exemplo, a Lua de hoje em trígono com o teu Sol. Para trânsitos usam-se orbes muito mais pequenas do que no mapa natal; no hoohoo, 5° para a Lua e 1,5° para os outros.

Os horóscopos por signo, os das revistas, usam um truque mais simples, chamado casas solares: põe-se o teu signo solar na casa 1, o seguinte na casa 2, e assim por diante. Assim, se hoje a Lua estiver em Leão, para Carneiro está na casa 5 e para Touro na casa 4, e cada signo recebe um texto diferente (drstandley.com). Os horóscopos diários fazem-se sobretudo com a Lua, que muda de signo a cada dois dias e meio; os mensais com os planetas pessoais; os anuais com Júpiter e Saturno. O primeiro horóscopo de jornal saiu em 1930, no Sunday Express, com o mapa da recém-nascida princesa Margarida (R. H. Naylor, Wikipedia).

De onde vem tudo isto

A astrologia como sistema aparece na Babilónia, no segundo milénio antes de Cristo. A forma do mapa com signos, casas e aspetos nasceu no Egito helenístico, depois de 332 a.C., e Ptolomeu organizou-a no Tetrabiblos, no século II (Western astrology, Wikipedia). Passou pelo mundo islâmico, voltou à Europa em traduções latinas medievais e foi ensinada nas universidades até ao século XVII.

A astrologia que hoje se lê é sobretudo do século XX. Alan Leo, em Inglaterra, trocou as previsões concretas por "tendências" e leitura de carácter, em parte depois de ter sido levado a tribunal por ler a sina (Alan Leo, Wikipedia). Dane Rudhyar, nos anos 1930, aproximou-a da psicologia de Jung e propôs uma astrologia de compreensão em vez de previsão (Dane Rudhyar, Wikipedia).

E isto funciona?

Os testes controlados dizem que não. No estudo de Shawn Carlson, publicado na Nature em 1985 com um protocolo acordado com astrólogos, estes tentaram fazer corresponder mapas a perfis de personalidade e acertaram ao nível do acaso. Estudos com pessoas nascidas com minutos de diferença, ou com milhões de registos de casamentos, também não encontraram efeito (Astrology and science, Wikipedia).

Há também uma razão para os horóscopos parecerem certeiros. Em 1948, o psicólogo Bertram Forer deu a todos os alunos a mesma descrição de personalidade, tirada de textos astrológicos, e numa escala de 0 a 5 a nota média de acerto foi 4,2. Chama-se efeito Forer, ou efeito Barnum (Ness Labs).

Por isso o hoohoo é uma brincadeira para pensar sobre ti. A astrologia não é uma ciência e não prevê o futuro. Não tomes decisões importantes com base no que lês aqui. O que pode dar é um pretexto para olhar para ti com outros olhos, e um vocabulário bonito para conversar com quem gostas.

Para explorar por tua conta

Algumas das fontes que usámos para escrever esta página e para construir o hoohoo. Estão quase todas em inglês.

Para aprender a ler um mapa

Para perceber os conceitos

História, ciência e ética

Livros clássicos

Ptolomeu, Tetrabiblos (século II); Vettius Valens, Antologia (século II); William Lilly, Christian Astrology (1647); Dane Rudhyar, The Astrology of Personality (1936); Chris Brennan, Hellenistic Astrology (2017).

Como o hoohoo calcula

  • Astronomy Engine, a biblioteca de efemérides (MIT). Nos testes automáticos do hoohoo, que comparam datas de referência com a Swiss Ephemeris, o Sol e a Lua ficam a menos de 30 segundos de arco.
  • Base de dados de fusos horários da IANA, para a hora legal de cada lugar e época.
  • GeoNames, para as coordenadas das localidades.